Sexta-feira Santa

dez 30, 2012   //   by admin   //   Sem comentários
Antigamente na sexta-feira santa tudo se entristecia, porque há séculos o filho de Deus, feito homem, deu sua vida para salvar a humanidade. As imagens da igreja se preservavam aos olhos dos fiéis, cobrindo-se de panos roxos. Havia tristeza, mesmo para as crianças que não compreendiam os fatos narrados pelos padres em seus sermões. Conversava-se o mínimo possível e em voz baixa.

Comércio fechado, dia de jejum e abstinência. Os sinos e campainhas se emudeciam e só o som forte e soturno das matracas – instrumento formado por uma tábua com argolas de ferro que ao ser agitada batem na tábua a que se acham presas e produzem uma série rápida de sons – ecoava nas celebrações e procissões.

Nos ouvidos ainda ecoam os sons lamurientos da banda de música regida pelo maestro Zequinha Silveira, que tocava músicas fúnebres e aquela fila imensa de fiéis, com velas acesas nas mãos, acompanhava o andor e o padre Fernando. Tudo em respeito ao que ia morrer, novamente, para salvar os homens e suas almas, perdoando pecados e erros. A procissão do enterro era um momento de grande fé aguardado com ansiedade. As figuras representativas desfilavam sob a curiosidade das crianças que eram assustadas pelas batidas do centurião, encarnado na pessoa do Sr. Américo Josino da Silveira.

A figura da Verônica, desempenhada por Irene Marques da Cunha, cantava com voz lúgubre “O vos omnis que transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut dolor meum”, traduzindo “Ó vós todos, que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor igual a minha dor”. Ao povo da cidade se juntava o pessoal vindo das áreas rurais com suas famílias, hospedando-se nas casas de parentes. As emissoras de rádio só tocavam músicas clássicas e orquestradas. Os caminhões que buscavam leite nas fazendas não saiam das garagens. Os fazendeiros doavam o leite para a população e as crianças saiam da cama de madrugada e se dirigiam as fazendas com latas nas mãos para buscar o leite. Era dia de doce de leite e muito arroz doce.
Sábado da Aleluia, dia de malhar o Judas, um boneco de pano recheado de bombinhas era confeccionado e colocado em um poste de madeira onde era malhado e queimado, geralmente na madrugada de sábado para domingo de Páscoa, quando a moçada aproveitava para fazer arruaças pela cidade, tudo de acordo com o figurino de uma cidadezinha interiorana.

Hoje, tempos coloridos das novelas de televisão, as famílias aproveitam a folga para temporada à beira-mar, viagens de turismo ou visitar parentes distantes. Não se respeita mais o silêncio devido e tudo é permitido, desde barzinhos e casas noturnas com som nas alturas até altas horas. O assunto não desperta interessante, mas reaviva a memória já cansada, rememorando tempos que não voltam e vozes que já não falam, mas recordam de um momento inesquecível vivido na pureza da infância em Monsenhor Paulo. Quem sabe, a infância não exista justamente para provarmos um pouco da saudade?

Nota: Figuras da Semana Santa de 1948
Maria Madalena     -  Pulchéria Caovilla (Quélia)
Verônica               -  Irene Marques da Cunha
João Evangelista   – Homero Baldim
Centurião               – Américo Josino da Silveira
José de Arimatéia - José Patrocinio Silveira
Nicodemus            – Pedro Oliveira

Deixe um comentário