Avô Luis

dez 30, 2012   //   by admin   //   Sem comentários

Teus olhos cansados já não conseguem distinguir com nitidez a imagem das coisas.E tu te perdes pelas ruas de tua própria cidade. As mesmas ruas que tu vistes nascer, agora te confundem, te fazem tropeçar. São verdadeiros obstáculos, como se quisessem cobrar os erros que porventura cometestes sobre elas.

Aos poucos, a vida se evapora de ti e te faz sentir cada vez mais fraco. A seiva da juventude, que antes te escorria vigorosamente pelas veias, agora vai secando pouco a pouco, como a um osso que foi deixado exposto ao sol ardente. Mas és teimoso. Teimoso e forte, como aos bois com os quais tu lidavas até bem pouco tempo atrás.

Tu és forte a ponto de desenvolver um quase sexto sentido, que te ajuda a viver talvez teus últimos anos. Sim, porque os teus sentidos naturais estão falhos, a ponto de te deixarem passar despercebidos, teus próprios filhos e netos. Que drama o teu, heim meu velho!? Quer ajudar, já não pode; Quer falar, e já não te ouvem. Chorar? Não. Acho que tuas lágrimas já se perderam, misturadas ao suor que derramastes durante toda vida.

Apesar de tudo, acho que deves te sentir recompensado. Basta olhar ao teu redor. Que maravilha! Quantos frutos brotaram de teu suor, de tuas rugas, de teu cansaço! Quantas lágrimas eles te custaram!?. E agora, eles estão aí, ou melhor, nós estamos aqui, e nos orgulhamos de levar nas veias, o mesmo sangue que tu. Tuas raízes já se foram. Não há ninguém acima de ti.

Nós é que temos o privilégio de ter a ti como nossa única raiz sobrevivente. Tu fizeste o teu papel, cumpriste o teu destino. Custe o que custar, um dia haveremos de ocupar o teu lugar. Que pretensão!!
** Escrito mais ou menos 03 meses antes da morte de meu avô.**

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