A Jardineira

nov 2, 2012   //   by admin   //   Sem comentários

Todas as manhãs, exceto domingo, às 9h15 a Jardineira cumpria religiosamente seu ritual. Saia de casa conduzida pelo seu proprietário e se dirigia ao bar do Américo onde recolhia a mala de correspondência entregue pelo Correio com destino a Campanha.

Exatamente às 10h, “chovendo chuva ou canivete”, ela partia de seu ponto atrás da Igreja, passava pelos Baldim, fazenda de “seu” Flávio, Limeira, Cervo, Placa, Palmela e galhardamente ultrapassava mais de trinta mata-burros (certa vez contei trinta e dois). Barro, atoleiros, barrancos… uma epopéia. E à tarde, às 5h em ponto, ela retornava com a sua missão cumprida, desfazendo as angústias e as inquietações daqueles que haviam pedido uma encomenda: um saco de açúcar do armazém do Fonseca, um remédio da farmácia do Messias, receitado pelo Dr. Oliveira e ou Dr. Manoel; um sapato, uma agulha, um tecido da loja do Elias Bacha, um saco de cimento do Chico Gama, retratos da Foto Araújo do “seu” Paulino, uma galinha – pois essa Jardineira era pau para toda obra – e trazia de volta correspondências que representavam a esperança, e a curiosidade de todos nós:

- Quem chegou? Aquele é o fulano?

- Olha, parece a fulana.

- Não conheço. Será o sicrano?

Ah! Tínhamos lá nossas bisbilhotices…

A Jardineira era o elo da cidade com o exterior. Sem ela, a cidade ficava prostrada, sem Correio, sem encomendas, sem ninguém poder sair ou chegar, pois em muitas ocasiões foi o único meio de locomoção daquela Monsenhor Paulo tão querida.

“Oh! jardineira, por que estás tão triste? Foi a camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu”. Não. Essa nossa Jardineira nunca foi triste e nunca morrerá. Ela faz parte de nossas vidas, de nossas lembranças, de nossa história.

A nossa Jardineira foi o ganha pão de seu fiel proprietário Sr. Pedro Silveira. Com a ajuda dela uma família maravilhosa de onze pessoas nasceu, cresceu e está brilhando em diversos setores profissionais. O Sr. Pedro foi sem dúvida o nosso “pombo-correio”, o mensageiro de todos nós, sempre eficiente e correto. Juiz de futebol, não hesitava marcar um pênalti contra o nosso time no último momento do jogo, mesmo que estivéssemos ganhando por 1×0…

Bom, mas essa é outra história que fica para depois… Agora, é a hora da Jardineira.

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